Essa confusão custa caro ao médico empresário. São duas reformas, não uma.
Por que 2026 junta, no mesmo ano, uma mudança em como a sua clínica é tributada e outra em como você tira dinheiro dela, e por que ler as duas juntas é a única leitura que funciona.
Todo ano alguém anuncia que “o imposto vai subir”. Quase sempre é ruído.
Em 2026 não é. Pela primeira vez em muito tempo, a frase tem endereço, e o endereço é o médico que tem CNPJ.
O problema é que esse médico recebe a informação errada. Ele ouve “a reforma tributária” no singular, como se fosse um evento só, distante, que o contador resolve sozinho num canto. E aí decide com base em meia história.
O que eu vejo circular todo dia:
↳ “Vou esperar a reforma terminar para mexer.” (Esperar é uma decisão. Quase sempre a mais cara.) ↳ “Tenho equiparação hospitalar, estou protegido.” (Protegido de quê, exatamente? São tributos diferentes.) ↳ “Meu contador já está cuidando disso.” (Cuidando de qual das duas? Porque são duas.)
A verdade que organiza tudo cabe em uma linha.
O que chamam de “a reforma tributária” são duas reformas. E o médico que só olha uma paga as duas.
O MAPA: DOIS ANDARES E UMA ESCADA
Eu gosto de explicar isso como um prédio de dois andares. A clínica mora nele. E o erro mais comum é arrumar um andar e esquecer que existe o outro.
PARTE 1: O andar de baixo (o que a sua clínica vende)
Aqui mora a reforma do consumo: a Emenda Constitucional 132/2023, regulamentada pela Lei Complementar 214/2025. Ela aposenta PIS, Cofins, ISS e ICMS e cria a CBS e o IBS.
É o andar que muda como a clínica é tributada quando emite nota.
O que importa para você, em ordem prática:
↳ A CBS começa em 2027, no lugar de PIS e Cofins.
↳ A saúde recebeu um redutor setorial, que derruba a alíquota cheia (o “27,5%” do grupo de WhatsApp não é o seu número).
↳ O IBS entra gradualmente de 2029 a 2033. Médio prazo, mas já entra na conta de quem estrutura agora.
↳ O sistema é não cumulativo: você credita o tributo que vem embutido no que compra.
↳ Folha quase não gera crédito. Fornecedor PJ no Lucro Presumido gera. Fornecedor no Simples gera pouco.
Repare no último ponto, porque ele é silencioso e decisivo. A partir de 2027, a sua carga efetiva vai depender menos da alíquota oficial e mais de como a sua clínica gasta o dinheiro.
Exemplo simples: duas clínicas, mesmo faturamento, mesmo redutor. Uma compra a maior parte dos serviços de fornecedores no Simples; a outra, de fornecedores no Lucro Presumido. No fim do ano, elas pagam diferente. Não pelo preço da consulta. Pela engenharia da despesa.
Em uma linha: o andar de baixo não se resolve pela alíquota, e sim pela estrutura de custos, que se planeja antes, não em dezembro.
→ Leia o artigo: https://junqueiraeteixeira.adv.br/servicos/holding-protecao-patrimonial.html
PARTE 2: O andar de cima (como você se paga)
Aqui mora a reforma da renda, em vigor desde 1º de janeiro de 2026. Ela não mexe na clínica. Mexe no bolso do sócio.
São três frentes que interessam ao médico empresário:
↳ Retenção na fonte sobre dividendos quando a distribuição mensal de uma mesma empresa para um mesmo sócio passa de um teto na casa das dezenas de milhares de reais.
↳ Um imposto mínimo da pessoa física, o IRPFM, para quem tem renda anual alta, que pode alcançar parte do que hoje sai como lucro isento.
↳ Retenção sobre remessas de dividendos ao exterior.
E o ponto que quase ninguém percebeu: isso alcança inclusive o médico no Simples Nacional.
Existe uma tese forte de que o sócio do Simples conserva a isenção dos dividendos. Eu acredito nela. Mas ela está em julgamento no Supremo. É tese sólida, não é direito pacífico. E tratar como certo o que ainda está em discussão é a forma mais comum de errar a decisão.
Exemplo concreto, desses que doem: o sócio que, com medo da regra nova, distribui um valor alto de uma vez só, no mês errado, e cai exatamente na retenção que queria evitar. A pressa, aqui, é cara.
Em uma linha: o andar de cima decide quanto do seu lucro chega até você, e a forma como você se paga virou decisão tributária.
→ Leia o artigo: https://junqueiraeteixeira.adv.br/servicos/holding-protecao-patrimonial.html
PARTE 3: A escada (a ordem das decisões)
Este é o andar que ninguém desenha, e é o que separa o médico organizado do médico surpreendido.
O andar de baixo mexe na clínica. O de cima mexe na sua retirada. A escada é a relação entre os dois. Decidir regime, pró-labore, distribuição de lucro ou holding olhando um andar só é resolver metade do problema e criar a outra metade.
Três perguntas que eu acho que todo médico empresário deveria conseguir responder ainda em 2026:
↳ O regime da minha PJ continua sendo o melhor depois da CBS? ↳ Quanto eu distribuo por mês, e isso me joga dentro da faixa de retenção da reforma da renda? ↳ Minha estrutura patrimonial está pronta para um ano em que o ITCMD também ficou progressivo?
Nenhuma tem resposta de prateleira. Todas dependem do caso concreto: regime, composição da receita, valor distribuído, renda total, objetivos de família.
Em uma linha: as decisões certas existem, mas só na ordem certa, e a ordem nasce de olhar os dois andares juntos.
EXEMPLOS QUE EXPLICAM MELHOR DO QUE EU
↳ A troca de fornecedor → clínica que migra parte das compras do Simples para o Lucro Presumido e muda a carga de CBS sem aumentar um centavo no preço.
↳ A distribuição apressada → sócio que saca um valor alto de uma vez por medo da regra, e ativa a retenção que tentava evitar.
↳ A equiparação confundida → médico que jura estar “protegido da reforma” porque tem equiparação hospitalar, sem perceber que ela vive na renda e a CBS, no consumo. ↳ O Simples tratado como certeza → sócio que ignora a regra nova “porque está no Simples”, quando a própria tese que o protege ainda está no Supremo.
↳ A espera estratégica → médico que decide “aguardar a reforma terminar”, e perde as janelas que se fecham com o calendário dela.
Cada um desses erros tem a mesma raiz: olhar um andar só.
→ Leia o artigo: https://junqueiraeteixeira.adv.br/servicos/holding-protecao-patrimonial.html
ISSO NÃO É SÓ SOBRE IMPOSTO
A estrutura vale fora do consultório/PJ.
↳ No esporte → o atleta que treina só o ataque e perde pela defesa. O jogo é o conjunto, não a metade que ele prefere.
↳ Na arquitetura → ninguém reforma a fundação e ignora o telhado. Casa é sistema; cede pelo ponto esquecido.
↳ Nos negócios → a empresa que otimiza vendas e descuida do caixa cresce e quebra ao mesmo tempo.
Reforma tributária é isso: um sistema. Quem lê pela metade não erra por falta de esforço. Erra por enquadramento.
NÃO EXISTE MILAGRE. EXISTE LEITURA COMPLETA.
Eu não escrevo isto para vender medo. Medo faz o médico sacar de uma vez no mês errado.
Escrevo para trocar o enquadramento: pare de procurar “a” reforma e comece a ler “as duas”. Não se trata de pagar zero, de fórmula, de garantia. Trata-se de montar, dentro do que a lei permite, uma estrutura que aguente os dois andares ao mesmo tempo, em vez de ser pega por eles.
E é a estrutura patrimonial que costura os dois andares. É ela que decide se o lucro que sobrou vira patrimônio protegido, ou imposto repetido na sucessão. Foi sobre isso que eu escrevi, no site do escritório, um guia honesto sobre a holding do médico: o que ela faz, o que ela não faz e onde ela falha por dentro.
Se a sua próxima pergunta é “e a minha estrutura, aguenta isso?”, comece por aqui:
→ Leia o artigo: https://junqueiraeteixeira.adv.br/servicos/holding-protecao-patrimonial.html
Um abraço, Gabriel Junqueira


